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Igualdade racial na pauta das eleições 2014

por Dalmo Oliveira
Dalmo Oliveira é jornalista

A temática da promoção da igualdade racial, que traz em sua esteira a questão do combate ao racismo, o enfrentamento da sociedade a todas as maneiras de preconceitos, será um dos assuntos diferenciados esse ano durante os próximos meses da disputa eleitoral. Em vários estados da Federação vários pré-candidatos, por vários partidos (especialmente aqueles mais ideologicamente populares), se preparam para incluir o assunto – desconfortável, diga-se de passagem – nos espaços públicos da discussão sobre políticas públicas necessárias para tornar o Brasil, também, uma democracia racial.


Grande parte desses pré-candidatos e pré-candidatas são mulheres e homens que militam nos chamados “movimentos negros” há décadas. São ativistas que cansaram de cobrar ações, providências, comprometimentos de parlamentares e gestores que, em eleições passadas, prometeram que levariam essas bandeiras em seus mandatos/gestões e, passado o tempo, verificou-se que nada ou pouco foi feito nesse sentido.
Com o passar dos anos, parte dos militantes desse movimento social chegou à conclusão que não adianta transferir essa tarefa para pessoas que nunca sentiram o racismo na pele, porque por mais boa vontade que tenham com a população negra brasileira, têm dificuldades em compreender a complexidade do que é ser negro/negra no Brasil.
Nos últimos anos o Parlamento Federal e algumas casas legislativas pelos estados até ganharam um ou outro parlamentar vinculado ao movimento negro, mas numa proporção insignificante em relação àquilo que representa a população negra na demografia nacional. Na Paraíba, mesmo uma representatividade ínfima ainda não se consolidou nesses espaços de poder. Os eventuais parlamentares negros paraibanos eleitos nas eleições passadas não possuíam qualquer vínculo com o movimento negro, ou sequer defendiam em suas plataformas as demandas seculares específicas dos afrodescendentes paraibanos.
Por conta desse descompasso e da falta de representatividade legítima da população negra nas Câmaras e Assembleia Legislativa é que as comunidades quilombolas – quase 40 na Paraíba – continuam desprovidas de um olhar mais cuidadoso dos poderes públicos constituídos. Quase não há leis em benefício desse segmento. Por outro lado, as ações de governos não parcas, esparsas e incipientes.
Se não há leis, o Judiciário também se mantém leigo, inerte e insensível às causas dessas populações de cidadãos. Mesmo os Ministérios Públicos permanecem alheios aos desequilíbrios sociais perpetuados entre a cidadania negra e a não-negra. As desvantagens sociais para o povo negro são estruturantes e muitos se negam a enxergá-las e admiti-las. Essa é a discussão que a sociedade da Paraíba deverá fazer até outubro, tendo como pano-de-fundo o motivo eleitoral. Nossa espectativa é de que esse ano prevaleça uma discussão mais republicana, baseada em políticas públicas afirmativas, e não no discurso fisiologicamente oportunista.


*138 é o novo telefone do ‘Disque Racismo’


A ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Luiza Bairros, anunciou sexta-feira (20), em entrevista coletiva no Centro Aberto de Mídia João Saldanha (CAM), no Rio de Janeiro, a criação de um novo canal para recebimento e encaminhamento de denúncias sobre o crime de racismo. O Disque Igualdade Racial ou Disque Racismo, deverá ser efetivado nos próximos meses e funcionará em todo país por meio do número 138. “O enfrentamento ao racismo e seus efeitos na vida das pessoas passou a fazer parte da agenda governamental a partir de 2003, quando foi criada a SEPPIR. Desde então, temos desenvolvido um conjunto de iniciativas, de agendas que se traduzem em planos e programas para segmentos da população negra no Brasil”, disse a ministra.
“Dentro do governo já existia a Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial, que acolhe da parte da sociedade denúncias de discriminação que são encaminhadas para os poderes de justiça, para que eles deem seguimento a essas denúncias. Para agilizar essas denúncias é que criamos o Disque Igualdade Racial, por meio do número 138. Neste canal, o Estado brasileiro dará uma resposta e uma distribuição mais ágil para a justiça”, completou ela. A ouvidoria já recebeu, desde 2011, 1.545 denúncias de racismo.
A criação do Disque Racismo é mais uma ofensiva do governo brasileiro, que foi pioneiro no mundo na ideia de criar uma Secretaria no primeiro escalão da administração federal, com status de Ministério, para tratar do assunto. Por ter sido o primeiro governo do mundo a institucionalizar a discussão de políticas de igualdade racial, o Brasil é referência internacional na área. Nos últimos meses, a SEPPIR tem mantido contato com entidades ligadas ao futebol, aos árbitros e às torcidas organizadas para prevenir e conscientizar sobre o racismo, difundindo que tal prática é considerada crime imprescritível e inafiançável no País, com pena prevista de 1 a 5 anos de prisão e multa pela Lei 7.716/89.
Em 2010, o Congresso Nacional aprovou o Estatuto da Igualdade Racial e nos últimos anos aprovou também leis que criam cotas para negros em universidades federais, nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e no serviço público. “Queremos que a discriminação não mais atue”, finalizou Luiza Bairros.
A Lei de Cotas nas universidades federais, instituída em 2012, ampliou a presença da população negra no ensino superior gratuito do país. Segundo levantamento feito pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da UERJ, o número de vagas reservadas para negros, pardos e indígenas subiu 225% entre 2012 e 2014: eram 13.392 vagas separadas para esse grupo naquele ano, e agora são 43.613 vagas reservadas. Para a ministra, “estamos pautando processos de mudança no Brasil. E este amadurecimento pode ocorrer também na Copa do Mundo”.

Fonte: Centro Aberto de Mídia*


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